sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O lugar do SILÊNCIO na Filosofia

 

No dia 26 de fevereiro, a biblioteca escolar Carolina Michaëlis fez-se representar na conferência sobre "O lugar do SILÊNCIO na Filosofia", na pessoa da sua professora bibliotecária.
O convite partiu do Instituto de Filosofia da UP, para a docente Vera Barbosa, realizar na Faculdade de Letras, uma conferência dirigida a alunos do Mestrado em Filosofia.

Importa destacar aqui o excelente desempenho da oradora com uma comunicação muito envolvente e reflexão interessante sobre o papel do silêncio no quotidiano.

Partindo desta conferência e com referência a autores como Byung-Chul Han e Yuval Harari, poder-se-á fazer uma breve reflexão sobre a temática.

Vivemos rodeados de ruído. Não apenas o ruído sonoro, mas o ruído permanente da informação, da urgência e da necessidade constante de presença. O silêncio tornou-se quase uma anomalia no quotidiano contemporâneo — um espaço vazio que rapidamente tentamos preencher com notificações, opiniões, imagens ou distrações.

Talvez seja precisamente por isso que falar sobre o silêncio hoje seja tão necessário.

Ao refletirmos sobre o silêncio, percebemos que ele não representa ausência, mas possibilidade. Possibilidade de escuta, de contemplação e de consciência. Numa sociedade orientada para a produtividade e para a exposição permanente, o silêncio surge quase como um gesto de resistência. Parar, desligar, não reagir imediatamente — tudo isso parece contrariar a lógica acelerada do nosso tempo.

Byung-Chul Han alerta frequentemente para o desgaste provocado pelo excesso de estímulos e pela incapacidade contemporânea de permanecer em contemplação. Perdemos, pouco a pouco, a capacidade de estar em silêncio sem ansiedade. O vazio assusta-nos porque nos confronta connosco próprios. No entanto, é precisamente nesse espaço silencioso que o pensamento ganha profundidade e que a experiência humana se torna mais autêntica.

Também Yuval Harari sublinha que, num mundo dominado por algoritmos, dados e inteligência artificial, o maior risco pode ser o afastamento de nós mesmos. Se estamos constantemente ocupados a consumir informação exterior, deixamos de ouvir a única voz que nenhuma tecnologia pode substituir: a consciência interior.

O silêncio, nesse sentido, não é fuga ao mundo. É condição para compreendê-lo melhor. Há perguntas importantes que só emergem no silêncio.

  • Quem somos quando o ruído termina?
  • O que permanece quando deixamos de representar continuamente versões de nós próprios?
  • Conseguimos ainda distinguir entre aquilo que desejamos verdadeiramente e aquilo que apenas absorvemos do fluxo incessante à nossa volta?

Talvez recuperar o silêncio seja, hoje, uma forma de recuperar humanidade.

E talvez uma das maiores formas de liberdade contemporânea seja, simplesmente, conseguir parar para escutar.

De Byung-Chul Han, um dos títulos mais pertinentes para esta temática é:

  • A Sociedade do Cansaço — uma reflexão muito forte sobre o excesso de desempenho, hiperatividade e esgotamento na sociedade contemporânea, onde o silêncio e a contemplação acabam por perder espaço.

Também poderá ser muito interessante:

  • A Sociedade da Transparência — aborda a obsessão contemporânea pela exposição, comunicação permanente e eliminação do mistério e da interioridade.

De Yuval Noah Harari, o livro que talvez dialogue mais diretamente com esta reflexão é:

  • 21 Lições para o Século XXI — especialmente pelas reflexões sobre distração digital, inteligência artificial, excesso de informação e a necessidade de autoconhecimento num mundo acelerado.

E ainda:

  • Homo Deus — onde questiona o impacto da tecnologia na consciência humana e no sentido da experiência interior.

Bibliografia breve

  • A Sociedade do Cansaço. Lisboa: Relógio D’Água.
  • A Sociedade da Transparência. Lisboa: Relógio D’Água.
  • 21 Lições para o Século XXI. Lisboa: Elsinore.
  • Homo Deus. Lisboa: Elsinore.
  • Sapiens: História Breve da Humanidade. Lisboa: Elsinore. 
Num tempo saturado de ruído, recuperar o silêncio pode ser uma das formas mais profundas de preservar a liberdade interior.




0 comments:

Enviar um comentário